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Entrevista com Grasiela Rigotto: quebrando o tabu do vestido branco

Este é um ato a favor da independência das noivas irreverentes, atuais e ousadas.

Grasi escolheu preto para seu vestido de noiva, e o melhor: todo mundo já desconfiava que assim seria… Veja o porquê na entrevista.

A Grasi Rigotto (40) é uma dessas pessoas irreverentes e únicas que temos o prazer de encontrar na vida. Sua jornada como noiva, conectou sua história com a L’amour instantaneamente. Ela tem a nossa cara!

Desde o primeiro contato sabíamos que ela seria uma voz atual e relevante para as noivas que – assim como ela – não querem colocar seu casamento dentro da caixinha dos padrões sociais. Ela é muito prática, decidida e passou a não se importar com as opiniões de alheios. Com isso veio a escolha – polêmica – de um vestido de noiva preto. Sim!

Nossa entrevistada fala de coração aberto sobre sua personalidade, a história de amor até o casamento, o processo de construção do vestido, como aconteceram os fatos mais importantes durante o noivad

L’amour – Sabemos que cada pessoa é única e isso faz de nós – seres humanos – tão especiais. Fale um pouco sobre a Grasi. Qual a sua essência?

Grasi Rigotto “Qual a sua essência” é mais ou menos como “descreva-se com apenas uma palavra”. Nunca achei muito fácil responder a essa pergunta (nem em entrevista de emprego). Mas enfim, no geral eu me acho uma pessoa muito descomplicada na maneira como vejo a vida, ou seja, as coisas sempre têm dois lados e geralmente duas escolhas. Ou é ou não é. Acho que a gente é que tem mania de querer complicar as coisas. Se fosse para escolher uma palavra, eu diria que gosto de “intensidade”. Confesso que sou meio “8 ou 80” em tudo – na fofura e no ranço também (risos).

*ranço é uma expressão regionalista usada para designar uma implicância muito forte por uma pessoa, sem motivo aparente.

L’amour – Conte um pouco da sua história de amor.

Eu e o Cesar nos conhecemos através de um aplicativo de relacionamento: Happn. Ele funciona por proximidade geográfica e eu fazia italiano perto de onde o Cesar morava. Um belo dia de abril de 2016, o perfil da pessoinha aparece pra mim. Vi que era carioca e motociclista (e eu também sou), me interessei, dei um like e BINGO, digo MATCH (risos). Começamos a conversar e no dia 06 de maio marcamos o primeiro encontro em um barzinho na Vila Madalena.

As conversas e as saídas foram aumentando, ele me pediu em namoro e eu costumo dizer que, não tem jeito de sermos românticos porque no dia 30/10/2017 (meu aniversário), ele fez reservas no Restaurante Jamille do Chef Fogaça – a gente assiste Masterchef.

Quando chegou o momento da sobremesa, eu pedi um mousse de chocolate com Whisky – que por ser mais fluido vem servido no prato e o Cesar pediu um charuto de chocolate – que parece um biscoito. Na hora de entregar, o garçom traz as sobremesas e coloca o charuto na minha frente. Eu, desatenta, já soltei um: “moço, tá trocado, o meu é o mousse!”. O garçom todo sem jeito, olha pro Cesar, olha para o prato e pra mim. Nesse momento eu me dou conta de que tem uma caixinha com um anel preto lindo com caveirinhas e uma pedra preta – em cima da sobremesa.

Eu só conseguia dizer:
– Nossa! É lindo… ai que lindo! Amei! Lindo mesmo!
Ele com os braços apoiados na mesa e com as mãos segurando o queixo me disse:
– Tu sabe o que é, né?
– Sei, meu presente!
– Não, não é teu presente!
Diz ele revirando os olhos e rindo.
– É o que eu tô pensando?
Eu respondo de olhos arregalados e boca aberta.
– É.
– Isso é um anel de noivado?
– Sim.
– Tu tá me pedindo em casamento?
– Sim.
– Então pede, porra!
– Você quer casar comigo?
– Siiiiim!

Levantei e dei um beijo nele por cima da mesa e instantaneamente os garçons que estavam olhando a cena comemoraram e bateram palmas. Depois disso começamos os preparativos para o casamento.

L’amour – A sociedade tem uma ideia popularmente aceita de que noivas deveriam casar de branco. Isso, de certa forma influencia mulheres de todos os tipos a estarem acostumadas com esse conceito. Como surgiu a ideia de usar um vestido preto no seu casamento?

Na verdade, eu nunca fui muito obcecada por casamento, no sentido de “sempre sonhei com meu casamento desde pequena”. Quando eu era mais nova, dizia que estaria casada com 25 anos. Com 25 eu estava sendo transferida de um estado pra outro, focada na minha carreira e assim permaneci por muitos anos. Acabei virando noiva e casando aos 40 anos. Mas, uma coisa que eu tinha comigo era: “se um dia eu casar, vou casar de preto”.

Eu sempre gostei de preto! Meu guarda-roupas é composto 90% por roupas pretas. Também sempre gostei muito de caveiras – desde antes de elas virarem moda e a gente achar em qualquer site ou esquina – e rock’n’roll. Nunca tive aquele perfil “meigo” ou “floral” como eu digo. Acho que desde criança, eu gostava muito mais de jogar taco na rua com os meninos e esfolar os joelhos de bicicleta, do que brincar de fazer comidinha de terra com o fogãozinho superequipado da amiguinha que morava na mesma rua. Já adulta, a vida seguiu a mesma linha.

Então eu diria que a ideia do vestido preto não surgiu de repente, na verdade ela sempre esteve lá, desde nem lembro quando. Só coloquei em prática.

As pessoas que me conhecem mesmo, de verdade, não ficaram surpresas (risos). O que mais ouvia de amigos quando eu falava da cor do vestido era: “Eu sabia! É a tua cara!”.

L’amour – O casamento é um evento dos noivos, das famílias e amigos que são envolvidos em muitas etapas até o dia da cerimônia. Você teve o apoio do noivo e da sua família?

Sim, claro! O Cesar (meu marido) achou o máximo quando eu falei. Minhas irmãs idem, meu pai também, mas acho que ele estava tão feliz por eu casar que podia ser um vestido de arco-íris que ele acharia incrível (risos). A parte mais legal foi quando contei pra minha mãe. Liguei uma noite e falei:

– Mãe, o Cesar me pediu em casamento e nós decidimos que vamos nos casar aí em Caxias… já estamos vendo alguns lugares para o final do ano que vem.

A resposta dela:
– Ah, que legal! Parabéns! E o vestido, vai ser que cor? Preto?
– Aham (risos).
– Eu sabia.

Bom demais, melhor reação que eu poderia receber! E nesse mesmo dia, descobri que ela queria ter se casado de vermelho.

L’amour – Tudo o que é diferente, disruptivo e inovador pode causar um estranhamento nas pessoas. Você sofreu preconceitos ou pré-julgamentos por ter escolhido um vestido de noiva preto?

Acredite se quiser, em pleno 2018… sim, vários! Por conta da cor do vestido, um pouco de fotos e vídeos foram parar em alguns blogs de noivas, de casamento e afins. Volta e meia alguém me marcava em algum post e onde eu estava, parava pra ler os comentários. Gente do céu, eu lia de tudo.

– Olha a noiva cadáver.
– Tenho pena do noivo quando viu ela entrar assim!
– Essa não tem Deus no coração.
– Parece um velório ao invés de um casamento!

Ah, e um dos meus preferidos: “parece aquela bruxa loira do filme da branca de neve”. Esse eu até me dei ao trabalho de responder algo do tipo:
– Sim! A Ravenna! Obrigada, amo ela. E amo mesmo, Charlize Theron está maravilhosa naquele papel.

Teve uma pessoa que falou: “essa aí conseguiu o que queria, causar. Sim, porque pra casar com um vestido preto, a pessoa só pode estar querendo chamar a atenção”.

Aí depois fiquei pensando:
– Gente! O que passa na cabeça desses seres humanos? (risos).

Eu demorei 40 anos da minha vida para resolver casar e quando decidi, foi única e exclusivamente com o objetivo de chamar a atenção de um bando de desconhecidos na internet?

O engraçado é que, por mais que lesse esses comentários nos dias que seguiram o casamento, eu estava num grau de felicidade tão grande que eu ria [juro].

Porque é óbvio que a gente não gosta de ouvir coisas ruins ou críticas, a gente prefere sempre elogios. É normal do ser humano, mas eu simplesmente não me importei com as críticas dos ilustres desconhecidos.

L’amour – Com uma escolha inusitada, é possível imaginar que seu traje de casamento foi confeccionado. Como foi o processo de criação do seu vestido de noiva?

Bom, não demorou muito pra eu perceber que nunca acharia um vestido de noiva PRETO como eu queria, então concluí que teria que mandar fazer um, obviamente. Eu revirava a internet atrás de modelos que me agradassem e cada vez que eu digitava “Black wedding dress”, via uma porção de minivestidos com tutus de tule, meias arrastão e tênis All Stars ou infinitas fotos da Avril Lavigne ou ainda modelos lindos que eram “só vestidos lindos pretos de festa”.

Mudei o foco e comecei a procurar modelos em branco, tentando visualizá-los em preto e em paralelo pesquisando sobre estilistas/costureiros, mas sem muito sucesso. Casaríamos em novembro e em março já estava surtando por não saber pra que lado correr com o vestido. Eis que um dia eu posto um print do álbum “vestido” do meu celular nos stories do Instagram com a legenda “socorro”. Cris – meu amigo e Wedding Guru – apareceu e me salvou.

O Cris é maquiador e cabeleireiro, super-mega-especialista em noivas e me pediu se eu tinha ideia do tipo de vestido que queria. Mandei duas fotos pra ele e disse:
– Quero algo como a parte de baixo deste e com a parte de cima deste.

E só uma pessoa que entende muito do assunto pra saber o que fazer com uma dica sofrível como essa que eu dei (risos). Na hora ele disse:
– Deixa comigo! Acho que já sei quem vai fazer esse vestido pra você. Vou falar com ele e depois contigo.

E quando retornou, já me passou o contato do segundo anjo que eu tive no meu casamento: o Marco Castioni. Um estilista incrível, dono de um talento sem igual, de Ribeirão Preto também.

Quando cheguei no ateliê ele simplesmente falou:
– Então… o Cris me mostrou as fotos que você mandou pra ele com o estilo de vestido. Falou um pouco de você e eu dei uma olhada rápida no teu Instagram também. Vi uma foto de tatuagem que me inspirou e esse aqui é o croqui que pensei para o teu vestido.

O croqui estava pronto, desenhado com tudo o que eu queria e nem sabia que queria. Eu não sugeri alteração nenhuma naquela hora, simplesmente olhei e me apaixonei no mesmo segundo. Lembro de ter ficado com a boca aberta e imóvel por alguns segundos.

Fizemos sete ou oito provas no total porque eu viajava de São Paulo pra Ribeirão para provar e sempre em finais de semana. E o resultado, foi uma noiva de preto com o vestido mais lindo que já existiu (sim, é piegas porque todas falam isso, mas é justo eu falar porque é o meu, né? risos).

“Não estou falando que vou lançar tendência agora, mas acho que muitas vezes as pessoas têm vontade de fugir um pouco de alguns padrões e não fazem talvez por medo ou receio do que os outros vão pensar ou falar e às vezes basta saber que alguém lá fora também já fugiu do script para a gente se sentir um pouco mais encorajada”.

Deixar essa parte frisada com aspas na diagramação porque incita bem a proposta da revista..

L’amour – Por mais que as coisas estejam mudando diariamente em nossa sociedade, ainda há pessoas que estão de fora dessa transformação. Você acredita que pode inspirar pessoas com a sua história?

Eu acredito que sim. Não estou falando que vou lançar tendência agora (risos) mas, acho que muitas vezes as pessoas têm vontade de fugir um pouco de alguns padrões e não fazem talvez por medo ou receio do que os outros vão pensar ou falar e às vezes basta saber que alguém lá fora também já fugiu do script para a gente se sentir um pouco mais encorajada.

Eu não fui a primeira mulher a casar de preto e nem a última, aliás, descobri que muito antigamente, era normal nossas nonas italianas usarem preto. Inclusive, a Vanessa – dona do Merceretto onde casamos –contou uma história sobre muito tempo atrás. A casa das bisavós ou avós dela (não lembro bem) é um casarão, então eles faziam festas de casamentos lá e uma delas se casou de preto.

L’amour – Deixa um recado para as noivas que leem a L’amour.

Não se preocupem com a opinião alheia, não deixem de fazer algo que é cara de vocês pela opinião alheia. O casamento é de vocês e dos seus pares, de mais ninguém. Casem-se com a cor de vestido que vocês quiserem, seja branco, vermelho, amarelo, púrpura ou preto. É só uma cor e o amor não tem cor, ele é só amor.